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Entrevista com Hedy Epstein
Israel: “Não Estava Preparada Para Todos Os Horrores Que Vi”

Hedy Epstein, 82 anos, nasceu em Friburgo, Alemanha, em 1924 (*) e morou em Kippenheim, uma cidadezinha situada a uns 30 quilômetros ao norte de Friburgo. Era a filha única de pais que morreram nos campos de extermínio nazistas. É uma incansável trabalhadora pelos direitos humanos e a dignidade de todas as pessoas.
Hedy decidiu visitar Palestina em 2003. Voltou imensamente impressionada pelo que viu lá, mulheres e crianças indefesas, palestinos encerrados em guetos, um povo inteiro tratado brutalmente.

14 de Junho de 2007

Tinha aprendido a amar as pessoas que conheceu e estava decidida a contar pro mundo as injustiças das quais tinha sido testemunha. Os palestinos estavam sendo despojados da sua terra, expulsos das suas casas nas que tinham morado durante séculos. Nada do que tem sido feito, nenhum protesto tem conseguido que Israel acabe com sua forma de tratar os palestinos. De fato, a cada vez que Hedy retornava era pior.
Por isso, vai se juntar com outros defensores dos direitos humanos que navegarão até Gaza no navio FREE GAZA [1] para exigir justiça para os palestinos e um corretivo para os 60 anos de opressão por parte dos israelenses.

Silvia Cattori : Toda sua vida tem sido dedicada à justiça. Mas desde 2003 a senhora tem intensificado este compromisso advogando pela justiça para os palestinos. Entendo que vai assumir certos riscos para conscientizar o mundo dos crimes perpetrados contra eles.

Hedy Epstein : Os organizadores me convidaram a participar da viagem no navio Free Gaza e esse convite para mim é uma honra [2].

Silvia Cattori : Não há dúvida de que entrar nas águas territoriais de Gaza com ativistas da paz palestinos, internacionais e israelenses, é um projeto maravilhoso, mas, não estará cheio de tensões? Não lhe preocupa participar numa expedição como essa?

Hedy Epstein : Lógico, estou um pouco preocupada. Mas, por acaso a vida me garante que nada vai me acontecer? Amanhã posso levantar e estar tão sonolenta, cair e quebrar a coluna. Por tanto, o que devo fazer? Ficar na cama pelo resto da minha vida? Não.

Na vida não existem garantias. Talvez ninguém tenha que passar por uma situação perigosa. Mas a minha participação não é mais que uma pequena contribuição comparada com os sofrimentos que os palestinos estão sofrendo todos e cada um dos dias. E se fazendo isso podemos contar para o mundo o que está acontecendo lá, então vale a pena ir. Tenho 82 anos e a maior parte desse tempo vivi uma boa vida. Deixem-me fazer uma contribuição antes que seja tarde demais.

Silvia Cattori : Este navio que vai para Gaza coincide com o 60º aniversário da saída de Marselha do navio EXODUS. Não lhe parece que sua presença num navio, que fará o mesmo itinerário que o EXODUS, é um pouco polêmica?

Hedy Epstein : Não. Estou fazendo aquilo que acredito e pelo que luto. Em determinados âmbitos, especialmente na corrente dominante da comunidade judaica, parece que sou uma traidora, uma « judia que odeia a se própria ». Bobagem. Não me odeio a mim mesma. Faz alguns anos o diretor de um semanário judaico me disse que não deveria ter ido à Palestina. Que em lugar de fazer isso deveria ter ido para Israel, como voluntária num hospital onde se tratam pessoas feridas pelos atentados suicidas.

E eu respondi que gostaria de ir como voluntária, mas que se eu ia ajudar um hospital israelense, iria ele a um hospital palestino para ajudar as pessoas feridas em conseqüência do que estava fazendo Israel? Estava horrorizado. "Na Palestina?". Respondi: “Sim, pode ir, eu estive lá então você também pode ir e quando o fizer, será um prazer para mim trabalhar num hospital israelense”. Aquilo aconteceu há muitos anos e não voltei a saber nada dele.

Silvia Cattori : Por que a senhora escolheu militar por uma causa num lugar onde os israelenses se opõem tanto à sua participação?

Hedy Epstein : Deixe-me que lhe conte algo sobre o meu passado para que você compreenda como cheguei até onde estou agora. Nasci no seio de uma família judaica na Alemanha. Eu tinha oito anos quando Hitler assumiu o poder. Meus pais perceberam em seguida que a Alemanha já não era um lugar seguro para permanecer e criar uma família. Desejavam ir embora a qualquer outro lugar e tentaram desesperadoramente ir embora. Mas NUNCA quiseram ir para a Palestina porque eram antisionistas fervorosos.

Naquele momento eu não entendia o que era o sionismo e o que era ser antisionista, mas sabia que na cidadezinha onde morava, que é Kippenheim, ao sudeste da Alemanha, existia um grupo juvenil "sionista" e meus pais não me permitiram participar. Eu era a única criança da aldeia que não pertencia a esse grupo. Como meus pais eram antisionistas fervorosos, embora eu não entendesse o que significava isso realmente, eu também era uma antisionista fervorosa.

Então, em 1939, graças ao imenso amor de meus pais por mim, pude abandonar a Alemanha e ir para a Inglaterra num comboio de crianças (Kindertransport). Quando fui embora, em maio de 1939, foi a última vez que vi meus pais e outros membros da minha família. Todos eles morreram nos campos. Cheguei a Estados Unidos em maio de 1948, aproximadamente, no mesmo momento que Israel se converteu num Estado.

Tinha diferentes sentimentos em relação com isso. Por um lado, estava muito contente de que existisse um lugar aonde os sobreviventes do holocausto pudessem ir, e que talvez não quisessem ou não pudessem voltar para seus locais de origem. Por outro lado, lembrando o fervoroso anti-sionismo dos meus pais, estava preocupada porque pensava que mais pra frente não surgiria algo bom disso. Não podia nem imaginar o que seria. Mas eu acabava de chegar aos Estados Unidos e tinha novas coisas que aprender. Portanto Israel ficou estacionado na minha esfera de interesse e aí permaneceu durante anos.

Em 1982 tive um choque que me acordou pessoalmente: os terríveis massacres nos dois campos de refugiados [palestinos] de Sabra e Chatila no Líbano. Tive a necessidade de entender o que significava esta tragédia, por que tinha acontecido e quem era responsável. Então, depois de compreender, tive a necessidade de saber mais sobre a história do acontecido entre 1948, quando Israel se converteu num estado e 1982, em Sabra e Chatila. E quando mais aprendia e mais compreendia, mais transtornada me sentia pelo que fazia o governo israelense, e ainda faz, no meu nome.

Assim, quanto mais aprendia, mais começava a denunciar publicamente as políticas e práticas do governo israelense em relação al povo palestino.

Então, em dezembro de 2003, fui à Palestina.

Silvia Cattori : Nunca tinha entrado em Israel?

Hedy Epstein : Tinha ido em 1981 para assistir à primeira, e provavelmente única reunião internacional de sobreviventes do holocausto. Para mim não foi uma experiência feliz. Percebi que alguns dos sobreviventes pareciam competir entre eles para ver quem tinha sofrido mais. Perguntavam: “Onde você esteve, em que campo?", e sem importar a resposta, a pessoa que tinha feito a pergunta sempre dizia: "Isso não foi nada; onde eu estive foi muito pior". Por que competir uns com os outros para declarar quem tinha sofrido mais? Cada um deles tinha sofrido e é verdade que uns mais que outros, mas não precisávamos competir por isso.

Levaram-nos para fazer uma excursão para visitar os lugares de interesse e as pessoas do ônibus perguntavam:

"Quem mora nesta área?"

"Estes são judeus".

"Ô, é lindo, os jardins são lindos! Quem mora lá?"

"Aqueles são palestinos".

"Ô, cheira muito mal, fede, é terrível, está sujo!".

De fato, as janelas do ônibus estavam fechadas e mesmo que estivessem abertas não teria sido possível cheirar nada no ônibus. Isto me incomodou; esta discriminação e esta forma de falar contra os palestinos, pessoas que nem sequer conheciam. Este é motivo pelo qual não foi uma experiência feliz, que me deixou um sabor amargo. Nunca mais voltei.

Em setembro de 2003 participei em Saint Louis, Missouri, de uma vigília semanal contra a guerra no Iraque. Fizemos essas vigílias desde muito antes da guerra começar, imediatamente após o 11 de setembro, todo domingo. Uma amiga minha estava do meu lado e perguntou: "Alguma vez você pensou ir à Palestina?"

Surpreendeu-me a minha própria resposta, que foi: "Sim, irei". Na verdade não tinha feito nenhum plano para ir, mas talvez o haja pensado de forma inconsciente e tinha me preparado para ir. Em dezembro de 2003, a amiga que tinha feito a pergunta, outras duas mulheres e eu estávamos na Palestina pela primeira vez. Voltei em 2004, 2005, 2006, e este ano espero ir a Gaza.

Silvia Cattori : Para você foi uma experiência difícil?

Hedy Epstein : A verdade é que não estava preparada para todos os horrores que vi. Por exemplo, tinha ouvido falar dos checkpoints. E pensava que um checkpoint fosse algo parecido com as cabines dos pedágios nas rodovias estadunidenses. Não se parece em nada com isso. E a cada vez que volto é pior. Como são agora, me lembram os animais quando são levados ao matadouro; é exatamente igual de humilhante.

Permita-me que divida com você uma experiência que tive na primeira vez que fui à Palestina. Estávamos num checkpoint perto de Ramala. Um reservista israelense me fez uma série de perguntas; devia ter quarenta e poucos ou cinqüenta e poucos, olhou meu passaporte e então me perguntou se era judia e respondi que sim. A continuação me perguntou se tinha estado alguma vez em Ramala. Antes que pudesse responder-lhe, me disse num tom muito zangado: "A senhora não sabe que em Ramala cortam de cima abaixo a cada judeu que vai lá?". E mexeu quatro vezes a mão através da cintura repetindo outras quatro vezes “a cortam de cima abaixo”.

Mas acabava de voltar de Ramala, onde fiquei com duas famílias palestinas diferentes, e obviamente não tinham me cortado. A verdade é que a hospitalidade que recebi dessas famílias, assim como de outras em outros lugares, não se parece com nenhuma hospitalidade que eu tenha recebido em qualquer outro lugar do mundo. Assim que chegava, deixava sempre claro que eu era judia, e nunca fez nenhuma diferença. A qualquer pessoa que encontrasse na rua, tanto com as famílias com as quais morei como com as pessoas na rua, eu dizia que era judia e nunca fez diferença. Tanto eles quanto eu, recusávamo-nos a sermos inimigos. Os verdadeiros inimigos eram os israelenses. Foram os únicos que me trataram de forma miserável e me fizeram dano.

Silvia Cattori : Então, ficou surpresa ao descobrir que os soldados israelenses humilhavam e tratavam o povo palestino de forma tão desumana?

Hedy Epstein : É verdade. De certa forma, me dão pena os soldados israelenses que estão na Palestina por causa do que isto supõe para eles. Que tipo de pessoas serão quando terminem o serviço militar? Maltratarão seus filhos, esposas porque estão acostumados a maltratar palestinos? Tem que ser algo terrivelmente prejudicial para eles. A ocupação e todo este caos têm que acabar pelo bem não só do povo palestino, mas também do povo israelense.

Silvia Cattori : O que me diz da senhora? Foi tratada brutalmente pele policia quando esteve em Israel?

Hedy Epstein : Fui sim. Em janeiro de 2004 estava no aeroporto Ben Gurion. Voltava dos territórios ocupados acompanhada por outra mulher. Quando chegamos ao aeroporto, a primeira pessoa da segurança com quem nos encontramos nos separou. À minha amiga lhe disseram que fosse para a direita e a mim para a esquerda. Eu tentei dar-lhe algum sentido a isto e pensei que talvez fosse porque ela era cristã e os cristãos iam para a direita e os judeus para a esquerda. Quando cheguei ao controle de passaportes e entreguei o meu e as passagens, a mulher que ali estava, teclou algo no computador e de repente, como surgidos do chão, apareceram dois homens ao meu lado: "Somos da segurança". Suas tarjas de identificação estavam viradas, e perguntei: "Qual é o nome de vocês?", mas não me responderam.

Levaram-me para um lugar que depois descobri era a delegacia do aeroporto. Disseram-me que entrasse numa cabine pequena instalada numa sala maior e tive que tirar os sapatos, que levaram para passar pelos raios-X. Apalparam-me por toda parte, passaram um detector pelo corpo e depois me disseram que me despisse. Disse-lhes: "Vocês não tem direito de pedir-me que faça isso, quero um advogado", e eles responderam-me: "Claro, a senhora pode ter um advogado, mas vai ficar detida no centro de detenção do aeroporto até que arrume um".

Como diabo ia conseguir um advogado se tinham tirado meu telefone e não podia entrar em contato com ninguém no exterior? Além do mais, estava preocupada com o que tinha acontecido com minha amiga, estariam fazendo com ela a mesma coisa? Uma das duas tinha que conseguir sair de aí, e tal vez eu fosse essa. Portanto aceitei me despir. Não só tive que me despir na frente de uma jovem, que devia ter uns 22 anos, senão que depois de ficar nua me pediu que me inclinasse para frente. Perguntei-lhe: "Por quê?", e respondeu: "Porque temos que examiná-la internamente". Nunca me tinha sentido tão zangada e alterada como naquele momento. Perguntei: "Por que você faz isto?". Ela me respondeu: "Porque a senhora é uma terrorista, a senhora é um perigo para a segurança".

Enquanto isso, revisavam cada um dos objetos da minha bagagem. Quando saí da cabine e já estava vestida de novo, seguiam revisando a bagagem até que finalmente terminaram e me disseram: "Pode guardar suas coisas". Estava tão zangada que respondi: "Vocês desfizeram minha bagagem, vocês a fazem de novo."

Também estive observando o que acontecia com as outras pessoas que estavam na delegacia. Tinha uma mulher jovem com um bebê de sete ou oito meses, e estavam revisando sua bagagem. Num determinado momento, o bebê começou a chorar e ela quis acalmá-lo com a comida que levava. Não permitiram que lhe desse a comida. Falei com ela um momento e me disse: "Sou israelense, sou judia, nasci em Israel, mas moro na Inglaterra e possivelmente isto nos acontece a mim e meu bebê porque não moramos mais em Israel".

Silvia Cattori : Por que a policia israelense a tratou duma maneira tão humilhante? Queriam castigá-la por ficar do lado das vítimas palestinas?

Hedy Epstein : Provavelmente nem só porque fui à Palestina, mas também pelo que fiz lá e o que vi lá. Participei em manifestações contra a ocupação e suponho que isso me converte num perigo para a segurança e numa terrorista. Os israelenses consideram que a resistência pacífica não violenta é terrorismo. Porém, o que eles fazem em resposta à resistência pacífica não violenta é verdadeiro terrorismo porque disparam gases lacrimogêneos contra os manifestantes, que são israelenses, palestinos e internacionais. Utilizam o que eles chamam de balas de borracha, mas não são balas de borracha, são balas reais cobertas por uma camada fina de borracha e podem matar; também usam munição verdadeira e canhões de água.

Lógico, experimentei tudo isto quando em 2005 voltei a participar na resistência não violenta no povo de Bi’lin em Palestina. Uma bomba sônica explodiu do meu lado e por causa disto perdi audição.

Mas isto não é grande coisa se comparado com o que tem que suportar os palestinos cada minuto de cada dia e de cada noite. Estão numa prisão, são prisioneiros. Eu posso ir embora quando quiser. Os agentes de segurança israelense podem-me deter durante várias horas no aeroporto, mas no fim posso ir embora.

Silvia Cattori : Como puderam fazer isso com uma pessoa tão querida como a senhora? Ficou impressionada pela sua violência?

Hedy Epstein : Fiquei. Mas os maus tratos não vão me deter. Talvez o fizeram para me dissuadir de voltar, mas, é claro que voltei e voltarei mais vezes.

Silvia Cattori : Depois dessa terrível experiência, quando voltou aos Estados Unidos e contou o que aconteceu, acreditaram?

Hedy Epstein : Algumas pessoas acreditaram na minha história, mas junto delas está a corrente dominante da comunidade judaica para a qual Israel sempre é a vítima e os palestinos sempre os terroristas. Realmente eles não compreendem, não fazem perguntas e realmente não querem saber o que acontece de verdade. Assumi um compromisso diante dos palestinos que conheci, todos me pediram: "Quando voltar para os Estados Unidos, por favor, conte pro povo estadunidense o que viu e o que vivenciou".

Porque o povo estadunidense não sabe. Assumi esse compromisso, assim que aproveito todas as oportunidades que tenho para contar o que vi e o que vivenciei. E, sim, há pessoas dentro da corrente dominante da comunidade judaica que querem me calar. Mas não vão conseguir. Podem me insultar, mas vou cumprir com meu compromisso com os palestinos.

Silvia Cattori : Como sobrevivente do holocausto, se sente incômoda por denunciar a brutalidade dos israelenses em relação aos palestinos?

Hedy Epstein : Eu nunca estive num campo de concentração porque meus pais se sacrificaram para que eu pudesse ir embora, assim que nunca tive a pior experiência que tiveram os sobreviventes, mas sei o que é ser discriminada. Conheci as intenções assassinas de Hitler entre 1933 e 1939, período durante o qual meu pai foi enviado ao campo de concentração de Dachau, em 1938. Voltou depois de quatro semanas, mas nunca voltou a ser o mesmo pai que eu tinha conhecido porque quando retornou era um homem envelhecido, quebrado.

E porque sei o que isso significa, creio que tenho o dever e a responsabilidade de lutar contra as injustiças das que outras pessoas são vítimas. Existem problemas no mundo inteiro e eu não posso fazer tudo, mas decidi que o trato que o governo israelense dá aos palestinos era uma situação contra a qual eu ia protestar e o seguirei fazendo enquanto for possível.

Para os sobreviventes do holocausto o lema tem sido "Nunca mais" e "Lembrar", e lógico que concordo com o lema de "Lembrar", mas este lema de "Lembrar" também deve ter uma perspectiva presente e futura. Não podemos nos deter em "Lembrar" e em dizer "Nunca mais" incluindo provavelmente só os judeus e ninguém mais. Quando me encontrei frente ao terrível muro de cimento de 7,6 metros de altura que Israel construiu e que separa alguns palestinos dos outros, pensei: "Meu deus, isto é o que os judeus estão fazendo, eles, que uma vez foram obrigados a permanecer atrás de muros, está construindo um muro e pondo os palestinos detrás, e no processo de construção está destruindo edifícios palestinos, casas, poços, mas nunca a esperança, porque o povo palestino é um povo extraordinariamente forte e valente".

Silvia Cattori : Suponho que depois desta experiência sua vida mudou completamente. E que agora precisa voltar ao lugar desse trauma.

Hedy Epstein : Sim. Preciso voltar para comprovar o que os israelenses dizem, que Gaza é livre e que já não está ocupada. Se realmente já não ocupam Gaza, eu devo conseguir chegar lá neste verão. E se me impedem entrar ou põem dificuldades, isto demonstrará ao mundo a mentira que os israelenses estão tentando de vender dizendo que já não mais ocupam Gaza. Se não mais estão lá, então, por que me impediriam entrar? É como uma prova.

Silvia Cattori : A senhora acredita que as coisas estão piorando e que nada mudará até que o movimento de solidariedade seja mais severo com Israel?

Hedy Epstein : A gente nunca sabe se o que fazemos significa alguma coisa. Assim que temos que seguir tentando, sem se render, temos que tentar coisas diferentes e, é claro, isto vai ser diferente. Talvez atraia a atenção do mundo, que talvez por primeira vez abra os olhos e os ouvidos, abra suas mentes para ver o que realmente está acontecendo em Gaza.

Silvia Cattori : Entendo que o que verdadeiramente lhe preocupa é tentar que o povo judeu e as organizações judaicas sejam mais conscientes do que estão indo pelo caminho errado quando se recusam a reconhecer o sofrimento e o direito á dignidade dos palestinos.

Hedy Epstein : Se, como dizem, realmente amam Israel e querem garantir seu futuro, deveriam abrir os olhos e as mentes, ver o que Israel está fazendo e como é nefasto. Se os israelenses querem estar seguros têm que parar de fazer o que estão fazendo e mudar por completo, acabar com as discriminações e os ataques contra o povo palestino. Então ambos os povos conseguirão viver em paz y harmonia. Isto é o que a maioria deles deseja mas, Israel, com a ajuda da comunidade judaica estadunidense e do governo estadunidense, está sempre bloqueando o caminho. O que estão fazendo é um erro: vai no sentido contrário do que querem conseguir.

Silvia Cattori : A maioria das pessoas que se preocupam com o que acontece na Palestina costumam ser acusadas pelos pró-israelenses de serem anti-semitas, a senhora procura explicar que isto é falso?

Hedy Epstein : Creio que para os cristãos muçulmanos, mas especialmente para os cristãos, é muito difícil, muito mais que para mim como judia. Se denunciam as políticas e práticas do governo israelense, automaticamente os vão chamar de anti-semitas. É ridículo que digam que eu sou anti-semita: sou semita, portanto, por que haveria de ser contra mim mesma? Isto é igualmente verdade em relação aos árabes. São semitas. Mas creio que para os cristãos é muito difícil, muito mais difícil, porque é verdade que alguns cristãos têm sido anti-semitas, de modo que quando afirmam que o que Israel faz está errado, aos olhos de alguns judeus transformam-se automaticamente em anti-semitas.

Silvia Cattori : O que responde aos que a acusam de ser anti-semita?

Hedy Epstein : Não tenho conseguido chegar até muitas organizações judaicas. Não querem me ouvir. Portanto, não consegui que escutem o que Israel está cometendo em seu nome. Quando me convidam a falar em grupos cristãos ou grupos não judeus ou muçulmanos, sempre me recebem com grande carinho, educação e amizade.

Silvia Cattori : Espera chegar ao coração dos israelenses com esta expedição? Acha que a maioria deles compreenderá finalmente que algo tem que mudar, que a brutalidade não vai resolver o problema?

Hedy Epstein : Quando estava na Palestina e me encontrava com soldados israelenses, aproveitava cada uma das oportunidades que apareciam para tentar falar com eles e lhes perguntar quem eram e por que o faziam. Tentei fazê-los falar de si mesmos e de como se sentiriam se a algum membro das suas famílias, sua avó, seu pai, lhe fizessem o que eles estavam fazendo aos outros. Como se sentiriam? Se não gostariam que acontecesse, não façam a mesma coisa com os outros.

Silvia Cattori : Às vezes estavam dispostos a ouvi-la?

Hedy Epstein : Só um soldado me disse "Vou pensar". Nunca saberei se o fez ou não. Mas me deixe que lhe conte uma divertida experiência que tive com um soldado israelense. Vários de nós tentávamos ir a alguma parte na Palestina. Era um grupo que estava fazendo um filme e eu ia com eles. Na manhã antes de sair deixamos as mochilas no carro. Vi uma bola de futebol no carro e perguntei: "Posso pegar a bola emprestada?"

Disseram: "Sim, mas o que quer fazer com ela?". Respondi: "Não sei". Me disseram: "Vá, pegue-a". Assim que eu tinha a bola nas mãos até que chegamos até um controle volante. Um controle volante não é um controle comum; vários soldados israelenses com jeeps bloqueiam as estradas e não deixam ninguém passar. Os soldados nos disseram que os estadunidenses podíamos passar, mas o sonoplasta não. Era palestino, embora tivesse documento de identidade israelense. Não deixaram ele passar. Suplicamos e rogamos que o deixassem passar. Mas o soldado respondeu: "Não, não pode passar; o resto pode, mas esse aí, não". Encontramo-nos num ponto morto porque não íamos embora sem ele. Então atirei a bola ao soldado e ele a devolveu. Estivemos brincando durante algum tempo até que de repente disse: "tudo bem, o sonoplasta pode passar". Aquele foi um final feliz, mas demonstra a arbitrariedade das decisões.

Silvia Cattori : Isto lhe dá algum otimismo em relação aos seres humanos?

Hedy Epstein : Bom, direi que quando vá a Gaza levarei junto uma bola. Não uma de futebol, uma bola pequena.

Silvia Cattori : Então neste verão estará no mar, caminho para Gaza, teme que os israelenses os ponham para fora de forma brutal?

Hedy Epstein : Não. O pior que os israelenses poderiam me fazer já o fizeram quando me examinaram no interior do aeroporto Ben Gurion em janeiro de 2004. Foi o pior, e nunca mais conseguirão me fazer sentir pior que nesse momento. Desta vez terão que examinar 70 pessoas.

Para além das traduções indicado para a parte inferior da página, esta entrevista também foi traduzido em:
- grego: http://greece-palestine.blogspot.com/2007/06/blog-post_19.html

Silvia Cattori

(*) Veja: http://www.hedyepstein.com/

Versão em português: Tali Feld Gleiser
http://www.alquimidia.org/desacato/index.php?mod=pagina&id=353

O artigo original pode ser encontrado em: http://www.counterpunch.org/cattori06132007.html